
Fecho os olhos. Sinto-me cansado. Desespero por um sono tranquilo. Já não recordo o último. A tormenta envolve-me.
Arrasto-me até ao espelho. Quero ver-me. Quero ver se ainda reconheço algum pedaço de mim. Não. Não reconheço. Olho o espelho e vejo algo que sabendo-o como sendo Eu, não o é mais.
A sabedoria começa onde o conhecimento acaba. E recordo-me dos ensinamentos de um sábio: "Não somos o nosso pensamento." Recordo e medito sobre tal sem saber se é uma maldição ou uma benção. Não me reconheço nos meus actos. Não me reconheço no turbilhão que é a minha mente. Sou apenas essência. Aquele que vê através de mim e que veste esta fatiota deprimente para enfrentar o mundo a cada dia que passa.
Fecho os olhos para não ver mais o ser disforme que se me é apresentado pelo reflexo. O olhar inexpressivo, um subtil esgar maquiavélico. A boca tem o sabor metálico do sangue. Sinto-me enojado. Enojado pelo que sou e não sou eu. Enojado por aquilo em que me tornei, algures no tempo passado, sem me aperceber.
Fecho os olhos e recordo-me de quando me conhecia. De quando tinha a legitimidade de poder gostar de mim. Quando tinha um sorriso sincero. Amava as coisas simples. Amava o mundo e deixava que ele me amasse. Quando brincava com profanações. Quando sustentava a minha pesada existência em pilares. Princípios. Princípios que me foram parecendo obsoletos e que hoje compreendo que eram o que fazia de mim o que era. Foram sendo derrubados. Hoje um. Amanhã outro. Sempre os mais inocentes e inofensivos. Depois aqueles que garantem a sustentabilidade da personalidade do ser. Já não era eu. Depois aqueles que garantem a sustentabilidade da sociedade. Já não era um ser social. Só um ser errante a alimentar-se dela. Depois aqueles que garantem a sustentabilidade dos sentimentos. E já não era nada. Era um monstro a que nada toca. Frio, e surpreendentemente alheio a tudo. Capaz das maiores barbaridades, sem que isso me aperte a consciência.
Hoje acordo de um pesadelo. Como me tornei nisto? Nesta coisa simplesmente alimentada de ódio.
Como é possível conter-se tanto ódio em nós? Ninguém devia ser obrigado a conter tanto ódio. A reter tanta agonia, a reprimir tanta dor. Sei que o mundo flagela outros mais do que a mim. Mas a mim o que me flagela, me corroi e me destroi é a minha mente. E contra isso, todas as defesas e racionalismos são inferiores. Consumo-me. Alguém me ajude! Apetece-me pedir, mas não consigo... ÓDIO!! Odeio cada sorriso, cada abraço, cada conversa, cada piada, cada aparentemente bela demonstração de sentimentos e afectos, que na realidade são demonstrações plenas de hipocrisia e arrogância. O Ser Humano é desprezível, unicamente digno de ser odiado! Não me aparece, por mais que procure, como um ser social.Só garantimos a sociedade para alimentar o indivíduo. O que seria da sociedade se não fosse baseada em regras formais? Seriamos como animais sociais? Não!! Seriamos como animais sim, mas numa feroz luta anárquica pelo poder, pelo prazer, pela vitória sobre o outro. Agonizo com cada olhar para um ser humano. Meu deus, como os odeio!
O sábio disse-me um dia: "Todo o ser humano é bom, está é esquecido." Como desejo que fosse assim... mas estou demasiado fundo para alimentar esperança.
Mas, acima de tudo e mais do que me acho no direito de odiar alguém, odeio-me! Odeio aquilo em que me tornei. Dói cada lembrança daquilo que fui e que não voltarei a ser. Dói cada lembrança das coisas quase inumanas que fiz. Coisas impensáveis para a mais simples das pessoas. Não suporto a convivência com a minha mente! Rejeito-me! Mutilo a minha essência em silêncio. Sobrevivendo... canibalizando.
Anseio a passagem através dos Portões de Prata. Para me reencontrar comigo. Com a multiplicidade do meu ser. Unir-me com o Universo e descansar. Esquecer a beleza do que fui e a dor do que sou e descansar... só.
A minha cabeça lateja. É desconcertante a dor. Cada vez me custa mais lidar com a torrente de pensamentos que invadem a minha mente a um ritmo avassalador! Não consigo racionalizar a avalanche. As rodas estão em movimento! Sinto a máquina... Sou assombrado constantemente por seres de outras dimensões! Fantasmas do passado, seres do futuro, todos a confrontarem-me... as teorias a auto-destruirem-se constantemente, as ligações, as conspirações, os pensamentos, os paradigmas, os dogmas, a luta contra os dogmas, visões do inferno... não consigo olhar senão para dentro, para o canto onde sou Deus e Demónio, onde Tudo acontece, onde a guerra é lutada com fogo, e que torna quase impossível achar-me ser humano, neste mundo "real". A realidade é só e só minha, todavia! Por favor, alguém que faça isto parar... anseio o fim do ódio. O descanso...
Abro os olhos. Continuo sem reconhecer o monstro no espelho. Passei o ponto sem retorno. Há coisas para as quais não há solução. Conformo-me. Arderei para sempre. Suplicaria perdão, mas sei que a tal não tenho direito. Não depois... Conviverei com o monstro que sou eu e vestirei mais um dia a pele de pessoa para conforto do mundo...